terça-feira, junho 29, 2004

COMURB

A Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Beja de 2004.06.28 foi das sessões mais concorridas de sempre. Não é a primeira vez que uma reunião magna de deputados municipais se depara com a presença significativa dos munícipes mas começa a detectar-se um pormenor que pode fazer a diferença: nas Assembleias Ordinárias realizadas nas freguesias comunistas, a participação do público tem sido fraca, contrariamente ao que tem acontecido nas restantes.
É um sinal a levar em consideração já que é conhecida a capacidade mobilizadora do aparelho comunista.
Na cidade, as coisas não terão os mesmos princípios motivadores mas não podemos deixar de registar que o auditório da biblioteca José Saramago foi pequeno para a quantidade de cidadãos que não quiseram deixar de estar presentes, sobretudo porque um dos pontos da Ordem de Trabalhos era a votação da proposta da Câmara Municipal para a adesão a uma COMURB do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral.
Como se sabe, a criação da COMURB tinha sido aprovada em Sessão de Câmara com 4 votos a favor e 3 contra e agora a Assembleia Municipal - de maioria PCP - rejeitou-a por um voto.
Está criado um impasse que não parece ter solução à vista.
Independentemente de tudo o resto, o PCP não tem argumentos de peso que sustentem inequivocamente a defesa uma estrutura administrativa regional do formato COMINTMUN com 47 municípios.
Porém, a oposição também não conseguiu esgrimir argumentos que convencessem da justeza da sua proposta e que sustentassem com clareza e sem margem para dúvidas que a COMURB é a solução para a Administração Territorial de uma região que o é por força de uma identidade indelével que vem do século XIII e não por vontade de uns neófitos arquitectos políticos que se acham detentores de uma intelectualidade esquerdina que encaminham os restantes para a condição de arrebanhados.
O grande drama da solução para a descentralização do poder central é que não se consegue encontrar uma ferramenta geradora de compromissos que não passe apenas pela satisfação das "tropas" cada vez que muda o partido do governo. Efectivamente, a Divisão Administrativa do Território que está em vigor, é a que foi implementada com a reforma de Marcelo Caetano e que consagrou os actuais Distritos, em substituição das Províncias. E ainda funciona.
A III República - até à data - não conseguiu nada de alternativo se afigure eficaz e eficiente e que seja susceptível de obter a adesão dos principais interessados em cada região: os cidadãos.
A participação é, por isso, a grande arma da cidadania e ontem isso ficou demonstrado. Sempre que um assunto de relevância estratégica para a vida dos cidadãos e das suas famílias está em causa, muito mais do que os políticos, o povo procura estar presente para fazer valer os seus pontos de vista.
O Presidente José Manuel Carreira Marques não respondeu às perguntas do público e aproveitou o período regimental reservado para o efeito para tecer considerações políticas dirigidas à oposição relativamente a uma iniciativa do Partido Socialista para mobilizar a população a estar presente. Não só o fez errada - porque não era o momento - como deselegantemente, pois desrespeitou os eleitores por não lhes ter respondido e acusou a oposição socialista de ter sido insultuosa no documento distribuído sem conseguir mostrar onde estavam os insultos (porque não existiam).
No todo, existe um défice muito grande de qualidade nos representantes eleitos pelos cidadãos e este é o principal problema. Impõe-se - nas próximas eleições autárquicas - a concepção de listas de pessoas com competências e capacidades interventoras situadas em patamares de exigência mais elevados, capazes de mostrar serviço. Não pode continuar a ser eleito quem julga que tem direito a sê-lo. Têm de ser aqueles que reúnem pré-requisitos consonantes com estratégias de médio prazo e que podem concretizar com êxito missões e atingir objectivos.
Uma Assembleia Municipal onde predominam deputados municipais "mudos" não pode merecer a confiança dos cidadãos na sua representação.

Editado em 2004.06.29.

Défice genético

Uma organização não governamental portuguesa - a Associação Solidariedade Imigrante - escreveu ao Presidente da República manifestando um pedido de suscitação de inconstitucionalidade da nova Lei da Imigração que brevemente será aprovada pelo Governo.
De facto, outras organizações já se tinham manifestado desfavoravelmente à Lei em causa - cujo texto final ainda não está concluído - como são os casos da Igreja Católica e da Ordem dos Advogados.
Na opinião da ASI, "qualquer política de imigração deve ter como princípio fundamental a dignidade da pessoa humana, proporcionar a efectiva inserção social, cívica e política e assegurar o acesso a uma cidadania plena".
Consideram que está em marcha a instituição da precariedade, permitindo a expulsão do cidadão estrangeiro por razões como o desemprego, a alteração do estado civil, maioridade, convalescença, factos que conduzem à perda do direito de residência e expulsão.
No centro das atenções parece estar um célebre artigo 93º, nº 5.
Esta carta ganha peso adicional na medida em que foi subscrita por individualidades e organizações prestigiadas da sociedade portuguesa, como são o caso da Cáritas, Liga Operária Católica, D. Januário Ferreira, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Vital Moreira, entre outros num total de cerca de 500.
A questão é importante num cenário que configura radicalismos conservadores de direita, a propósito da ideia de que todos os males sociais advêm da imigração, ilegal ou não.
Nesta matéria convém não esquecer que Portugal foi um país de forte emigração no final dos anos 50 e até aos anos 70 e que os portugueses, regra geral, sempre tiveram acolhimento minimamente digno nos países para que se dirigiram.
Hoje o nosso país necessita de importar mão-de-obra para determinadas áreas produtivas. Tem défice.

Editado em 2002.09.23 para o programa "Factos e Opini?es da Rádio Voz da Planície.

Dois aspectos relevantes:

O 1? prende-se com o anúncio "levantamento dos controlos aos preços dos combustíveis". O ministro da Economia diz que o Governo pretende eliminar, de forma "regulada", as limitaç?es administrativas aos preços dos combustíveis, diminuindo as margens praticadas e baixando custos para os consumidores.
É sabido que a liberalizaç?o do mercado já está legislada desde os executivos anteriores. N?o tem é sido aplicada no todo nacional. Aqui e ali v?o sendo tomadas iniciativas que chegam a atingir os ? 0,08 por litro de gasolina.
Desta vez o que estará em causa é a libertaç?o do OE dos encargos resultantes do aumento do preço do barril de brendt, resultante da emin?ncia do conflito bélico entre os EUA e o Iraque.
Portugal é, neste momento, o único estado-membro da UE onde existe preço administrativo dos combustíveis.

O 2? aspecto prende-se com a agitaç?o que se vive na economia mundial:
O ? vale agora $ 0,99.
Para as exportaç?es europeias, pode significar um ligeiro abrandamento, já que os compradores que pagam em dólares, pagar?o mais. Mas pouco.
N?o se interiorize que o ? está mais forte; n?o será o caso. O $ é que está mais fraco e esse facto relevante contribui para a paridade do Euro face ao Dólar.

Para a estabilidade económica mundial é positivo que se verifique esta paridade. As oportunidades directas caminhar?o para o equilíbrio entre as duas economias. E as vantagens competitivas da Europa surgir?o dos factores inovaç?o e qualidade que já o eram. Faltava a paz e a unidade que, a pouco e pouco se v?o instalando.
E, estou certo, o mundo será melhor.

Editado em 2002.10.01 para o programa "Factos e Opini?es da Rádio Voz da Planície.
Estamos a assistir ? emerg?ncia de uma nova ordem mundial, orientada por matérias que nada t?m que ver com ideologias ou religi?es.
O século XX viveu o imperialismo, o nazismo e a guerra fria, no continente europeu. Assistiu-se igualmente ? afirmaç?o de uma nova pot?ncia mundial ? a ex-URSS ? n?o tanto pelo dogmatismo ideológico estalinista mas, sobretudo pelo revisionismo de Krutechev.
No século XXI tudo aponta para um desvio do epicentro geo-estratégico para a Ásia Central e ? ao invés do que até agora acontecia ? os alinhamentos dever?o passar a efectuar-se por quest?es civilizacionais ( ocidentais e n?o ocidentais ), com protagonismo da China.
Como os mais atentos saber?o, este protagonismo emergente da China n?o se deveu ? pureza maoista mas sim aos desviacionistas de direita defensores da via capitalista, dentro do próprio Partido Comunista Chin?s.
É, por isso, mais do que provável que a nova superpot?ncia venha a ser a China.
Nesta perspectiva, é também mais do que provável que a coexist?ncia venha a ser conseguida agora entre civilizaç?es rivais e n?o entre blocos e que, no sentido de evitar um conflito catastrófico de grandes proporç?es, será bom que os líderes das influ?ncias civilizacionais n?o intervenham nos assuntos internos das outras civilizaç?es, acomodando-se ?s novas realidades. Tal cenário implicará uma reformulaç?o da representatividade no Conselho de Segurança da ONU, que aliás já começou.
Mas subsiste a quest?o económica do acesso aos recursos e os oportunismos baseados em eventos mais ou menos catastróficos.
No momento presente (2001-2002) assistiremos a uma recess?o seguida de depress?o económica, embora curta. A viragem de ciclo poderá ser conseguida (2004) pelo efeito alavanca da clonagem sobre todas as ci?ncias da vida. Os cidad?os do mundo ligados electronicamente passar?o para mais do dobro em 2005, mas assistiremos ao desaparecimento das dot.com e da dita (que nunca foi) Nova Economia, bem como ao abandono progressivo da web porque, entretanto, novos modelos de comunicaç?o digital integradores dominar?o a vida e o trabalho quotidiano com muito mais eficácia, efici?ncia e segurança.
A correlaç?o de forças dentro da OPEP mudará a favor dos produtores árabes mas com declínio das suas produç?es, por força das alternativas energéticas menos poluentes.
Daí que a luta pela posse de recursos possa alterar-se.
Veja-se o oportunismo das empresas de aviaç?o comercial (entre outras): há muito que a globalizaç?o provocou desgastes violentos na rentabilidade da empresas. Primeiramente, para fazer face ? concorr?ncia, fundiram-se empresas e criaram-se parcerias estratégicas que n?o resultaram. Com organizaç?es gigantes, emergiu a reengenharia para emagrecer os quadros mas n?o resultou. Eis que Osam Bin Laden aparece como salvador, justificando o despedimento de dezenas de milhares de trabalhadores nas principais empresas de aviaç?o comercial dos Estados Unidos e da Europa.

Editado em 2001.10.09 para o programa "Factos e Opini?es" da Rádio Voz da Planície.

Atentados e Crise

Tem vindo a noticiar-se nos media de que os atentados nos Estados Unidos da América do Norte s?o responsáveis pela crise dramática na denominada Nova Economia, sobretudo no sector da exploraç?o da internet, entre outros, claro está.
Bom, a crise ? neste e noutros sectores ? já vinha a anunciar-se desde o final de 2000 pelo que os ataques terroristas de 11 de Setembro (data t?o estranha esta que se repete ciclicamente em situaç?es graves) se afiguram agora como motivo de excel?ncia para os emagrecimentos que se impunham, a começar pela aeronáutica civil que já n?o sabia o que fazer para mandar para casa, pelo menos, 50% dos efectivos.
Regressando ? dita ?Nova Economia?, os analistas afirmam que o panorama actual é desolador, n?o só pelas sucessivas quebras no mercado bolsista, mas também pela quebra de procura por parte do mercado sustentador deste modelo de negócio.
Como já afirmei várias vezes, a Economia é, antes de tudo, um estado de espírito. O mercado ? constituído por pessoas ? tem de acreditar e estar motivado para consumir os bens e serviços oferecidos. Se n?o acredita, n?o consome e n?o investe. Acontecendo este comportamento e mantendo-se, verifica-se o desaceleramento e a recess?o.
No momento presente (2001-2002) assistiremos a uma recess?o seguida de depress?o económica, embora curta. A viragem de ciclo poderá ser conseguida em 2004 pelo efeito alavanca da clonagem sobre todas as ci?ncias da vida.
Os cidad?os do mundo ligados electronicamente passar?o para mais do dobro em 2005, mas assistiremos ao desaparecimento das dot.com e da dita (que nunca foi) ?Nova Economia?, bem como ao abandono progressivo da web porque, entretanto, novos modelos de comunicaç?o digital integradores dominar?o a vida e o trabalho quotidiano com muito mais eficácia, efici?ncia e segurança.
É por isso que os operadores caminham para a concentraç?o; isto é, as grades organizaç?es v?o absorver as mais pequenas.
Brevemente veremos manterem-se os gigantes e o desaparecimento dos mais pequenos. Na Europa tudo indica para a subsist?ncia da T-Online - Deutsch TeleKom, da Wanadoo ? France Telecom e a AOL, única independente europeia.
Tudo o resto desaparecerá.
Como n?o há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, vislumbra-se que este cenário possa gerar um fenómeno de reestruturaç?o do ?velho continente? e, com essa reestruturaç?o, gerarem-se novos mecanismos de redistribuiç?o de riqueza e geraç?o de novas oportunidades de criaç?o de valor.

Editado em 2001.10.02 para o programa "Factos e Opini?es" da Rádio Voz da Planície.

O Desenvolvimento integrado de Beja

Quando da visita do Sr. Presidente da República ao Distrito de Beja, o Governo apressou-se a garantir a concretizaç?o das infra-estrturas necessárias ao arranque do desenvolvimento económico da regi?o, tendo mesmo o Primeiro Ministro avançado com datas.
Refiro-me ao que está para além do pared?o de Alqueva, ao IP 8, e ? val?ncia civil da Base Aérea de Beja.
Relativamente ao regolfo de Alqueva, sabe-se que a barragem do Pedróg?o n?o avança e que estagnaram as iniciativas para a continuaç?o da instalaç?o dos canais adutores e das estaç?es elevatórias que ir?o abastecer a rede de barragens mais pequenas que, imagine-se foram todas construídas nos finais dos anos 50 e anos 60, em cumprimento do plano de rega para o Alentejo, do Governo de Salazar.
Do todo alentejano, até agora, praticamente só o Concelho de Ferreira do Alentejo está beneficiado com o pared?o, mas porque já tinha sistema de rega instalado. Tudo o resto parou.
Relativamente ao IP 8, as notícias n?o s?o melhores. De facto n?o parece que o arranque da construç?o daquela via fundamental para a ligaç?o do Distrito, desde o Rosal até Sines, esteja para breve. Antes pelo contrário.
Quanto ? BA 11, a cúpula da Força Aérea terá descoberto agora novas raz?es para n?o concordar com o projecto da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja.
Conclui-se ent?o que as iniciativas do Sr. Presidente da República só foram tidas em conta no momento e que, agora, nada de concreto se consegue obter do poder central.
Isto só acontece porque, ao contrário de outras regi?es, a nossa nunca conseguiu cimentar um loby de press?o para obter respostas do poder político.
E o desenvolvimento continua adiado.

Editado em 2002.09.24 para o programa "Factos e Opini?es" da Rádio Voz da Planície.

segunda-feira, junho 28, 2004

A Bastonada Ibérica

Já n?o nos faltava o défice de coragem de afirmarmos a nossa legitimidade soberana sobre parcelas de território ocupadas por Espanha - e sobre isso já lá v?o quase 2 séculos - como agora termos um Primeiro Ministro que prefere capitular perante uma esfarrapada adjectivaç?o de "lamentável incidente" que o Primeiro Ministro Espanhol rascunhou ao seu homólogo portugu?s.
Cabe-me o direito de pensar que Dur?o Barroso pode ter pago parte da dívida de apoio eleitoral que Aznar eventualmente lhe possa estar parcialmente cobrar por ter vindo a Portugal apoiar a campanha do PSD para as legislativas onde, como se recordar?o, fez consideraç?es onde se denotava uma clara inger?ncia nos assuntos internos da nossa Naç?o.
Devo afirmar a minha solidariedade para com O Sr. Presidente da Assembleia da República que, assumindo em pleno tal condiç?o, n?o olhou para as cores dos deputados injuriados pelas polícias Espanholas - estas a cumprir ordens do Governo de Madrid - e actuou em proporç?o do incidente: suspendeu a preparaç?o da sua visita ?s Cortes Espanholas até obter explicaç?es do executivo do País vizinho, por via da sua homóloga de Madrid, desviando-se de forma inequívoca do Primeiro Ministro.
O Sr. Presidente da República n?o terá ido t?o longe depois de ter recebido as explicaç?es de Madrid através do representante diplomático e a seu pedido. N?o somente por estarem envolvidos deputados portugueses, mas porque Portugal n?o tem tido qualquer atitude parecida para com os milhares de espanhóis que atravessam diária e livremente as nossas fronteiras.
Estamos a falar de cerca de meio milhar de portugueses injuriados pelas autoridades espanholas, ao serem tratados como indesejados.
O Governo de Madrid tem de curvar a coluna e pedir, formal e publicamente, desculpas pelo sucedido. Sem artifícios.
E Portugal - porque os portugueses exigem - tem o direito de saber porque é que é que é menos europeu que os espanhóis.

Editado em 2002.06.25 para o programa "Factos e opini?es" da Rádio Voz da Planície.