terça-feira, novembro 22, 2005

Xicoespertismo



Tenho de concordar com ele.

Numa das suas intervenções recentes, o Presidente Jorge Sampaio refería-se com veemência ao xicoespertismo.

De facto, tenho de aceitar que vivo e trabalho, não num país, mas numa colectividade de cultura e recreio. Que o que interessa é a imagem, o dinheiro fácil e conseguir aldrabar o parceiro.

Importa lá agora se A, B ou C tem competências, é íntegro, defende valores, paga os impostos, esforça-se por ter as contas em dia, se é cidadão atento e preocupado e é incorruptível? Essa alma é um perigo! Se ascende a lugares de decisão pode por em causa o ambiente em que os xicos-espertos se movem. É, com toda a segurança, um classe média e tem de ser mantido no lugar onde está. É ele que paga as estradas, as escolas, as universidades, os politécnicos, os centros de saúde, os hospitais, as pontes, os edifícios públicos, as viagens do Falcon, as comissões dos militares em missão no estrangeiro, ... é o tolo pagador e cumpridor. É ao bolso dele que os governos vão quando estão deficitários. É com ele que o governador do Banco de Portugal goza. É dele que os xicos-espertos vivem. Os pobres não pagam porque são pobres; os ricos não pagam porque não têm tempo. Mas é o parolo do classe média que é acusado de improdutivo, de culpado por não dedicar o seu conhecimento e competências ao país, de ser mau quando faz greve, de estar a mais no Estado e de ser responsável pelo agravamento da dívida das famílias.

EPC referiu-se no Público, exactamente a conteúdos de valorimetria de atitudes do povo português. Em boa verdade, como podemos exigir melhores políticas e melhores políticos se a massa crítica não está à altura de os escolher e fornecer?

Foi assim que se elegeu para Felgueiras quem se elegeu; e para Oeiras. E tantas outras coisas parecidas. Afinal, não só os nomeados que são maus; os eleitos também o são, não generalizando.

As excepções a esta regra vão desvanecendo, definhando e, provavelmente, morrendo.

Tudo se compra e tudo se vende em Portugal. E nada disto é novo. Mais de um século de literatura histórica contam, pelas pavras de grandes escritores, casos paradigmáticos de situações semelhantes às que Eduardo Prado Coelho relata.

E daqui por 100 anos, outros vão achar interessantíssimo o que alguns de nós escreveram, por ser intemporal e, por isso, actual.

É assim em Portugal há mais de 800 anos.

4 comentários:

  1. Será este o texto? É que não é do Prado Coelho.
    Jornal do Meio Ambiente - www.jornaldomeioambiente.com.br
    "Precisa-se de Matéria Prima para construir um País"
    Data: 14/11/2005
    por, João Ubaldo Ribeiro -

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  2. Aqui no Brasil tem uma expressão chamada Lei de Gérson, que tem como base o postulado "Você tem que levar vantagem em tudo, certo?" - por causa de uma propaganda de cigarros dos anos 80, em que um jogador de futebol de nome Gérson diz essa frase.

    Aí, a mesma coisa na essência é xicoespertismo.

    É assim, também no Brasil, há mais de 500 anos...

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  3. Luto com o Tempo, que me não dá tempo, para em oportuno tempo vos visitar.

    Por isso venho, reconhecidamente, agradecer aos que passam e comentam nos meus blogs.

    Também quero saudar os que, talvez como eu, não tenham tempo para me visitar.

    Abraços para todos.

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  4. O texto "Precisa-se de Matéria Prima para Construir um País" NÃO é de autoria de João Ubaldo Ribeiro. Veja aqui:
    http://noticias.cardiol.br/listanotsql.asp?P1=280667

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